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Sem perceber, vivi com uma santa

A dominicana Fernanda Mallorga relembra seus encontros com a bem-aventurada Guadalupe Ortiz de Landázuri, nos anos 60, principalmente quando ministrava formação especializada no Centro de Pesquisas em Ciências Domésticas (Ceicid)

NOTÍCIAS30/04/2021

Em maio de 2019 Guadalupe Ortiz de Landázuri subia aos altares. É sempre surpreendente conhecer a vida dos santos, mas agora me surpreende mais perceber como estão próximos de nós, como naquele dia em 1960 em que a conheci em Pamplona por ocasião da visita de São Josemaria Escrivá à Universidade de Navarra. Encontrava-me no meio de santos.

Mas não foi a única vez. Deus me deu a oportunidade de aprender de perto com essa mulher íntegra que foi Guadalupe. Em 1962, nos encontramos por várias semanas em um curso em Pamplona, no “Colegio Mayor Goimendi“. Tive várias aulas com ela e fiquei impressionada com a forma como nos transmitia o carinho e a segurança na sua vocação ao Opus Dei.

Estive vários anos fora da Espanha e voltei em 1968. No início do Centro de Pesquisa em Ciências Domésticas (CEICID), voltei a conviver com Guadalupe. Era um projeto totalmente novo, voltado para a formação de pessoas que se dedicam aos trabalhos domésticos e lá estava Guadalupe, trabalhando com entusiasmo e segurança e, embora eu não soubesse, tornando-se santa. Ela era doutora em Química e aplicou os seus conhecimentos no tratamento de produtos têxteis, químicos, etc. A sua vocação de pesquisadora ajudava-a a aprofundar e a melhorar as técnicas utilizadas nessa época na área dos trabalhos domésticos. Um exemplo: Sabendo que os raios ultravioletas do sol clareavam e desinfetavam as roupas, pensou que talvez as máquinas de lavar pudessem ser equipadas com esses raios em seu interior para otimizar o tratamento dos tecidos.

Lembro-me do seu entusiasmo ao preparar um curso sobre Teoria da Lavagem, contou-nos que até sonhava com o conteúdo e as imagens que utilizaria. Disse-nos, caminhando por um corredor: “Até sonhei a cores!”.

Certa vez, contei a Guadalupe, após uma viagem à República Dominicana, meu país, que fiquei impressionada ao ver as montanhas de cascas de arroz que se amontoavam nos moinhos de grãos e que havia muita dificuldade para descartá-las. Justamente, sua tese de doutorado foi sobre refratários e isolantes, pesquisa que concretizou na fabricação de um tijolo de casca de arroz. Quando voltei para São Domingos, ela me entregou a sua tese e um tijolo para que eu mostrasse ao meu pai, que achou a proposta muito interessante.

Fiquei particularmente impressionada com a sua alegria e serenidade, uma serenidade sobrenatural, baseada na sua confiança em Deus e em São Josemaria, com quem teve muito contato, por ter sido uma das primeiras mulheres do Opus Dei. Essa serenidade era perceptível todas as vezes, no final do ano letivo, que ela viajava para fazer sua revisão médica por causa da sua doença cardíaca. Guadalupe, ao se despedir, costumava nos dizer: “Caso eu não volte, está tudo em dia, em ordem”.

FÁCIL? DIFÍCIL? É VIVER, MAS VIVER FAZENDO A VONTADE DE DEUS. ISSO FOI O QUE EU VI EM GUADALUPE

No verão, durante sua estada na clínica, ela continuava a pesquisa com os têxteis e os novos produtos que chegavam ao mercado para o tratamento da roupa. Testava os amaciantes em tecidos modernos para ver o quanto eles alteravam a absorção de água.

Enquanto eu reviso todas essas coisas domésticas, nunca deixa de me surpreender que hoje eu possa dizer: “Bem, sim, eu conheci e convivi com uma santa”.O mais belo e impressionante é ver como uma pessoa comum, universitária, pesquisadora, apaixonada pela vida, amando o seu trabalho, esmerando em sua atenção aos outros, vivendo o espírito do Opus Dei, está nos altares. Fácil? Difícil? É viver, mas viver fazendo a vontade de Deus. Isso foi o que eu vi em Guadalupe: uma tranquilidade apoiada na confiança em que é Deus que leva as coisas para frente.

E o que mais me alegrou na beatificação desta mulher, química de profissão, boa irmã, boa filha, boa amiga, boa professora, atenciosa e cordial, é poder pedir-lhe o mesmo que pedíamos quando ela estava entre nós, com a certeza de que nos responderá com a mesma segurança e serenidade com que o fazia enquanto estava na terra.

Fernanda Mallorga

Tradução: Mônica Diez

Guadalupe Ortiz de Landázuri

opusdei.org/pt-br/article/fernanda-mallorga-guadalupe-ortiz/

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