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Melinda Me

27 de Fevereiro - São Gabriel da Virgem Dolorosa ou São Gabriel das Dores

A graciosa cidade italiana de Spoleto, na Perúgia, acordou radiante de alegria numa manhã da Oitava da Assunção de Maria, em 22 de agosto de 1856. Seus habitantes celebravam com júbilo a festa da Padroeira, agradecendo de modo especial o terem sido libertos da peste que devastara a região nos últimos anos.

Um belo quadro da Mãe de Deus, conhecido como a Madonna Del Duomo - Nossa Senhora da Catedral - ou a Sacra Icona - Sagrada Imagem -, havia sido retirado de seu relicário para ser conduzido pelas ruas, em solene procissão. Era um ícone de estilo bizantino doado à cidade pelo imperador Frederico Barba-Ruiva, em 1155, como sinal de reconciliação e de paz.

Segundo a tradição, teria sido pintado por São Lucas e se conservara na Catedral de Constantinopla até a época das perseguições iconoclastas. Não havia, naquelas animadas ruas, quem não caísse de joelhos ao ver desfilar com grande pompa a milagrosa imagem da Rainha do Céu. Todos esperavam receber d'Ela uma graça almejada, um consolo, uma bênção particular.

"O que fazes no mundo? Não foste feito para ele!"

Entre a multidão dos fiéis, aguardando a passagem do venerado ícone, destacava-se, naquele dia, um jovem de porte distinto e jovial. Quando a Sagrada Imagem da Santíssima Virgem passou diante dele e seu olhar fitou os olhos arrebatadores da imagem, ouviu de modo claro em seu interior estas inesquecíveis palavras: "Francisco, o que fazes no mundo? Tu não foste feito para ele. Segue a tua vocação!".1

Nesse momento, dando livre curso a abundantes lágrimas de agradecimento e compunção, tomou a firme resolução que há tempo vinha postergando: ser religioso, decidindo entrar na Congregação dos Passionistas. "Oh! Em que abismo não teria certamente caído se Maria, benigna até para com aqueles que não A invocam, não tivesse acorrido misericordiosamente em meu auxílio naquela Oitava de sua Assunção!"2, exclamaria ele, algum tempo depois. Tal episódio comovedor foi o decisivo ponto de inflexão na vida curta, mas gloriosa, de um dos grandes santos do século XIX: São Gabriel de Nossa Senhora das Dores, conhecido como "o santo dos jovens, dos milagres e do sorriso".3


Vivaz, gentil e cheio de afeto

Nascimento: 01 março 1838
Profissão religiosa: 22 de setembro 1857
Morte: 27 de fevereiro de 1862
Venerável: 14 Maio de 1905
Beato: 31 Maio de 1908
Santo: 13 Maio de 1920


E pensar que na casa da família Possenti não eram certamente poucos. Papai Sante e mamãe Agnese tiveram treze filhos. Alguns, é verdade, voltaram prematuramente ao céu e alguns outros viviam longe por vários motivos. Mas a casa do governador não ficou vazia. Todavia “em família se era como mortos sem Checchino”. Os severos cômodos da antiga casa adquiriam vida somente se fosse presente ele, Checchino, da alegria contagiosa e do sorriso ladrão. O irmão Michele (Miguel), já velho, repensando à própria juventude a via ainda profundamente marcada da vivacidade e da alegria do esperto Checchino.

Família nobre e numerosa de Checchino; o choro de bebê é sempre novo e fresco. Uma família sobretudo exemplar. Checchino ficou com a família até os dezoito anos, depois viveu seis anos no convento. Vida breve mas plena, vivida rapidamente, aquela de Checchino: ao conhecê-la parece vir-nos um suspiro. Quase impossível tê-lo escondido. “nos roubou o passo”, dirá com felicíssima expressão padre Norberto Cassinelli, seu diretor espiritual. Vida sorridente e fascinante: olhando de perto se descobre horizontes luminosos e libertadores.

E então, vamos rapidamente às datas extremas: Primeiro de março de 1838: nasce em Assisi (Perugia), décimo primeiro de treze filhos, do acessor pontifício da cidade. No mesmo dia o batizaram com o nome do mais ilustre dos seus conterrâneos, Francisco. Em casa e os amigos, porém, o chamarão sempre Checchino e entre os passionistas escolherá o nome de Gabriel. Vinte sete de fevereiro de 1862: morre na ilha de Gran Sasso (Teramo). Vive prodigamente vinte quatro anos . O papai Sante Possenti (Terni 1791-1872) formado em Roma, exercita funções de governador, delegado e assessor do Estado Pontifício em vinte seis cidadezinhas espalhadas em Marche, no Lazio e na Umbria. A mamãe Agnese Frisciotti é uma mulher nobre, doce e santa. Casaram-se em Civitanova Marche (Macerata), país natal de Agnese, no dia 13 de maio de 1823. Desse matrimônio nascem treze filhos: dois morrem logo após o nascimento, dois em tenra idade, quatro (entre estes Gabriel) na plena juventude. O mesmo dia noventa e sete anos depois, 13 de maio 1920, Gabriel será declarado Santo.

Em 1841 Sante é nomeado assessor de Spoleto (Perugia) onde se transfere com toda a família. Aqui, com menos de quarenta e dois anos, morre Agnese que, pouco antes de voar para o céu tem junto de si Checchino, que até então não havia chegado aos quatro anos. Abraça-o longamente, o beija e o confia à Nossa Senhora: Que ela vele sobre aquele anjo de filho ainda assim pequeno e já tão vivaz. E Nossa Senhora assumiu os cuidados tonando-se protetora e guia. Vigia atentamente também o pai Sante que educa com palavras e exemplos. De manhã, antes de ir para o trabalho, reza por uma hora e depois participa da missa levando sempre consigo algum dos filhos. De noite, o terço: que ninguém falte ou se adormeça. Ao final, exorta a todos “inculcando os princípios cristãos”.

Em 1844 Checchino inícia os estudos elementares. Não tem a mãe para preparar-lhe a mochila ou a merendinha. Porém a irmã Maria Luisa, nove anos mais velha que ele, e a governanta Pacifica Cucchi, a substituem no melhor modo. Em 1846, Checchino recebe a crisma e em 1851 a primeira comunhão.

Aos treze anos enfrenta os estudos ginasiais junto aos padres Jesuítas, naquele colégio que em Spoleto chamam orgulhosamente universidade: são anos fundamentais para a sua formação humana, cultural e espiritual. É inteligente, gosta de estudar, tem ótimos resultados, principalmente, nas matérias literárias. Os prêmios numerosos e gratificantes são o resultado. Compõe poesia também em latim; as recitações escoláticas o vêem como protagonista indiscutível e aplaudido. Exuberante, vivaz e perspicaz se torna um ponto de atração para a sua expansividade às vezes excêntrica. Segue a moda, veste-se muito bem e sempre com uma borrifada de perfume. Ama a alegria e onde tem festa, ele é sempre presente. “nasceu para a amizade”, dirão. Quer deleitar-se em tudo e a todo os custos; “A bela vida não o desagrada”. O nome de “bailarino” que lhe dão e que indica, não tanto o amor pela dança, quanto o seu comportamento elegante e distinto, é verdadeiramente merecido. Mas é também bom, generoso, sensível ao sofrimento dos pobres e ama a oração. Verte vida por todos os poros. A caça é o seu esporte preferido, o teatro o fascina, e ele freqüentemente se achega ao pai e à irmã. Nada de estranho, se o coração de qualquer garota começa a palpitar por ele.

Atraem-no os romances e lê àvidamente autores do tempo como Mazoni, Bresciani, Tommaseo e Grossi. Mas não tem muito tempo para sonhar: o futuro se avizinha e precisa prepará-lo. Na família outros já escolheram a própria estrada. Ele o que fará? È verdade: não lhe falta nada, mesmo assim nada o satisfaz plenamente. Quantas vezes, durante os espetáculos teatrais, escapole e vai contar à Nossa Senhora os problemas e ânsias do seu nômade coração. Quantas vezes se tranca no seu quarto diante de uma pequena imagem de Nossa Senhora das Dores, a ele queridíssima, e se encontra com os olhos cheios de lágrimas. E quem diria? Debaixo da roupa elegante, leva sempre consigo o cilício. Uma verdadeira confusão aquele jovem coração. Os repetidos lutos familiares e algumas doenças sofridas, o fazem perecer as alegrias humanas, breves e incosistentes como flocos de neve. Com treze anos por exemplo, adoece gravemente da garganta; vê a seu redor rostos preocupados e tristes. Que susto, pobre Checchino! Implora e obtém a cura do Beato Andrea Bobóla. Próprio nestes momentos, sentiu um grande medo e prometeu fechar-se em um convento, se fosse curado. De fato, pediu para entrar no convento dos Jesuítas, mas depois a vida voltou a envolvê-lo com os seus ritmos e a distrai-lo, com os seus apelos. Melhor assim. Melhor que não tenha partido. Não será o medo, mas o amor a levá-lo ao convento.

O pai resiste a deixá-lo partir. E quem poderia dizer o contrário? Teve treze filhos o papai Sante, e viu ao seu redor uma solidão cada vez crescente. Tereza se casou, Luigi Tomaso é um religioso dominicano, Enrico estuda para se tornar padre, Michele (Miguel) freqüenta a faculdade de medicina e cirurgia em Roma, duas filhas e quatro filhos já faleceram. Em casa, no ano de 1855, restam somente Maria Luisa de vinte e seis anos, Checchino com dezessete e Vincenzo com dezesseis. Sante ama imensamente a todos, porém Checchino é Checchino. É o mais querido de todos, repercute na sociedade, o auxilia como secretário e para ele sonha um brilhante futuro. Como fará sem ele?

Em 1855, um novo luto, entre os mais tristes. No dia 7 de junho, atingida pela cólera, morre, repentinamente, Maria Luisa que em casa tinha substituído a mãe. Checchino é envolvido por um furacão de porquês. A que serve vir e fazer um tanto de projetos se depois... A idéia do convento retorna com mais insistência, mas o pai faz de tudo para que essa não tome caminhos precisos. O que é preciso para que Checchino se decida verdadeiramente? No dia 22 de agosto, pelas estradas de Spoleto se realiza a procissão com a imagem de Nossa Senhora venerada na Catedral. Na multidão ele esta presente . Quando a imagem lhe passa diante, se sente ferir o coração com palavras de fogo que lhe estrafega a alma: “Checchino, o que você está fazendo no mundo? A vida religiosa o espera”. Checchino sai da multidão e se encontra chorando com o rosto entre as mãos. Desta vez é a Mãe que chama. Como é possível resistir? Nada e ninguém o impedirá. No dia 6 de setembro (não se passaram mais de quinze dias), parte de Spoleto e, no dia 10 seguinte, já está em Morrovalle (Macerata) para iniciar o noviciado. Ao longo da estrada superou provas não indiferentes causadas pelo seu pai, para examinar ulteriormente a sua vocação. Mas tinha razão Michele (Miguel) em dizer a todos da família: “Vocês sabem como é Checchino; quando toma uma decisão não volta atrás”.


Nascido em 1º de março de 1838, em Assis, foi ele batizado no mesmo dia com o nome de Francisco, em honra ao Poverello. Undécimo filho de uma família de treze irmãos, seu pai, o advogado Sante Possenti, exercia na época o cargo de prefeito. A mãe, Angese Frisciotti, pertencia a uma família de nobre ascendência, e morreu quando ele tinha apenas quatro anos.

Apesar de possuir um coração propenso à generosidade e simpatia, imperava no espírito daquele terno menino um temperamento indômito que, quando contrariado, se exteriorizava inúmeras vezes em ímpetos de cólera, durante os quais seus olhos escuros tornavam-se brilhantes e os pés batiam no chão com energia.

Tendo ele três anos de idade, a família Possenti transferiu-se para Spoleto, onde transcorreriam sua infância e adolescência. Ali Francisco se distinguiu por seu caráter vivaz, cheio de afeto, gentil, palavra fácil e cheia de graça, voz sonora e olhar penetrante. Seu diretor espiritual, o padre Norberto Cassinelli assim o descreve: "Reunia em si muitos dotes dificilmente encontráveis numa só pessoa. Era em verdade belo de alma e de corpo".4


"Eu não vivia senão por um pouco de fumaça!"

Esse temperamento amável e privilegiado não excluía o amor ao risco, tão comum na adolescência. O comandante da guarnição militar de Spoleto, grande amigo de seu pai, instruíra o jovenzinho a manejar com certeira pontaria a pistola e o fuzil. Sendo a caça seu lazer favorito, em um ano ganhou como presente de Natal uma bela escopeta... que não deixaria de ocasionar sobressaltos e preocupações a seu progenitor.

Aos 13 anos começou a frequentar a escola dos jesuítas, onde se sobressaía a todos os companheiros. Ele "era o preferido para declamar nas soirées acadêmicas. [...] Todos o queriam, tudo lhe sorria, tudo corria de acordo com seus desejos... Seu maior gosto era brilhar nas festas, nos saraus e no teatro".5

Também o baile constituía para ele grande motivo de atração. Dançava com tal habilidade que se tornou conhecido pelo apelativo de "il ballerino", e como tal animava
os mais cotados salões da cidade.


Esses momentos passados em frívolas distrações atormentaram depois sua consciência, levando-a a exclamar com frequência: "Ó, vaidade de meus passatempos!... Que cegueira a minha!... Eu não vivia senão por um pouco de fumaça!...".6

Um cilício sob as roupas elegantes

Porém, o jovem Francisco professava no seu interior uma fé pura e sincera. "Nunca se aproximava dos Sacramentos sem deixar transparecer os profundos sentimentos de fé e de religioso respeito dos quais esjotava compenetrado"7, declarou um dos seus mais íntimos amigos da época. "Quantas vezes o vi de mãos juntas, olhos umedecidos pelas lágrimas e como que arrebatado em profundos pensamentos!".8

Sobretudo, ninguém podia imaginar que aquele jovem aplaudido e aprovado por todos levava, sob as roupas elegantes e luxuosas, um rude cilício de couro cravejado de agudas pontas de ferro. No vaivém superficial dos acontecimentos, o anseio de trilhar algum dia na vida religiosa começava a despontar em sua alma. Faltavam, todavia, alguns lances decisivos para dar o derradeiro adeus ao mundo.


Árdua renúncia, feita com alegria

Após a morte da mãe, sua irmã mais velha, Maria Luísa, fora para ele um de seus principais esteios. Muito formosa, encontrava- -se ela na flor da idade quando irrompeu em Spoleto uma assoladora epidemia de cólera, da qual foi a primeira vítima... A morte da jovem, ocorrida no ano de 1855, causou em Francisco o impacto de um raio.

Disso se valeu a Providência para abrir-lhe os olhos sobre sua vocação. Logo após o falecimento, ele expôs a seu pai a resolução de ingressar num convento. Este, entretanto, recusou sua autorização, temendo que tal desejo fosse o fruto efêmero de um momento de dor. Receio, na aparência, confirmado, pois, com o correr do tempo, as atrações do mundo começaram a abafar de novo aquele anelo interior... "Podia eu" - escreveria depois Francisco a um de seus companheiros - "gozar de mais prazeres e diversões? E o que ficou de tudo aquilo? Nada mais do que vergonha, temores e turbações".9

Foi nessa situação que veio dar-se o crucial encontro com a Sacra Icona, graças ao qual o renitente jovem decidiu abraçar para sempre a vida religiosa.

Poucos dias depois desse episódio, em 5 de setembro, a mais seleta sociedade de Spoleto reunia-se no salão de cerimônias do Liceu Jesuíta, para assistir à distribuição dos prêmios de fim de curso. Enquanto presidente da Academia Literária, Francisco ocupava no salão um lugar proeminente.

Chegada a hora de subir ao cenário, a assistência prorrompeu em exclamações de entusiasmo, vendo um adolescente de dezoito anos apresentar- se com tanta elegância e distinção. "Aquele timbre de voz, aquela sonoridade, aquela vocalização e, sobretudo, aquela graça de expressão e de gestos eletrizavam e sacudiam os corações mais apáticos".10 Terminado o discurso, todos desejavam felicitá-lo, aclamá-lo, cumprimentá-lo, e ele respondia com seu habitual sorriso.

A decisão, porém, estava tomada. No dia seguinte, ele partiria para uma mudança de vida definitiva. Com apenas 18 anos, trocava um brilhante porvir por uma vida de renúncia e recolhimento. Dava, sim, um passo árduo, mas com o coração pervadido de alegria.


Passionista para sempre

Na manhã seguinte, Francisco partiu feliz de Spoleto em direção a Loreto, onde passou alguns dias estreitando os laços de amor e devoção a Maria Santíssima, no célebre Santuário.

De lá, dirigiu-se a Morrovalle para dar início ao noviciado passionista. "Ele, o elegante bailarino, o brilhante animador dos salões de Spoleto, escolheu entrar no austero Instituto dos Passionistas, fundado em 1720 por São Paulo da Cruz, com a missão de anunciar, através da vida contemplativa e do apostolado, o amor de Deus revelado na Paixão de Cristo".11

A mudança do nome para Gabriel de Nossa Senhora das Dores marcou a morte para a vida passada e o começo da caminhada nas vias da perfeição. Quando, em conversa com seus companheiros de convento, o assunto recaía sobre os acontecimentos do mundo, ele a interrompia com um sereno sorriso: "Por que falarmos daquilo que temos de abandonar para sempre? Deixem que os mortos enterrem seus mortos".12

Não pensemos, entretanto, que a adaptação à austera vida religiosa foi fácil para aquele jovem de vida acomodada. Acostumado às comidas finas, "os insípidos alimentos do pobre convento passionista causavam-lhe uma repugnância invencível. Apesar dos protestos de sua natureza, insistia ele em comê-los, até que seus superiores, compadecidos, permitiram-lhe, temporariamente, algum alívio".13 O mesmo acontecia com outros aspectos de observância da disciplina, mas ele fazia questão de cumprir eximiamente os horários e obrigações do noviciado, por muito esforço que isso lhe custasse, dada sua delicada compleição.


Amor à Paixão de Cristo e a Maria Santíssima

Durante sua vida de religioso, nele sobressaía, sem dúvida, um arraigado amor à Paixão do Senhor. Tal veneração sentia pelos sofrimentos de Jesus que nunca se separava do crucifixo: "Quando conversava, mantinha-o dissimuladamente na mão e o apertava com carinho; quando dormia, colocava-o sobre o peito; quando estudava, punha-o junto ao livro e, de vez em quando, o fitava e osculava com tanto afeto e fervor, que a imagem de metal foi-se gastando até ficarem apagados todos os traços da fisionomia".14

A essa devoção característica da congregação em que ingressara, no entanto, unia-se um amor "entusiasta, engenhoso e aceso à Santíssima Virgem".15 Seu famoso Credo di Maria revela-nos o encanto dessa alma apaixonada pela Mãe de Deus:

"Creio, ó Maria, [...] que sois a Mãe de todos os homens. [...] Creio que não há outro nome, fora do nome de Jesus, tão transbordante de graça, esperança e suavidade para aqueles que o invocam. [...] Creio que quem se apoia em Vós não cairá em pecado, e quem Vos honra alcançará a vida eterna. [...] Creio que vossa beleza afugentava todo movimento de impureza e inspirava pensamentos castos".16

Curta existência, pontilhada de atos heroicos

Na mente do noviço Gabriel, não havia espaço para nenhum outro pensamento a não ser Jesus e Maria. E sentia uma tão entranhada necessidade de levar às últimas consequências sua entrega a Deus e a Maria Santíssima que, certa vez, ao ouvir os passos de seu diretor espiritual, abriu a porta da cela e, arrojando-se a seus pés, lhe suplicou: "Padre, se achar em mim qualquer coisa, por pequena que seja, que não agrade a Deus, eu, com sua ajuda, quero arrancá-la a todo custo!". 17 O sacerdote respondeu-lhe que, no momento, nada via, contudo não deixaria de alertá-lo ao perceber algum sinal. Com essa garantia, o dócil religioso acalmou-se completamente.

Reconhecendo na hora suprema sua fraqueza, o santo repetia:
"Meus méritos são as vossas chagas, Senhor!"

Urna contendo os restos mortais do santo, no Santuário de
São Gabriel de Nossa Senhora das Dores - Isola del Gran Sasso (Itália)

Sua curta existência foi pontilhada de atos admiráveis, pois tudo praticava com espírito de inteira elevação e sublimidade: "Nossa perfeição não consiste em fazer coisas extraordinárias, mas em executar bem as ordinárias"18, costumava dizer.


Movido por uma poderosa voz interior, aquele jovem vivaz, gentil e cheio de afeto decidiu tornar-se religioso. E, já revestido do hábito passionista, em um êxtase, sorriu pela última vez, aos 24 anos de idade.

O último sorriso

Após um ano e meio de noviciado, em fevereiro de 1858, Gabriel deu início aos estudos para o sacerdócio, passando a morar finalmente no convento de Isola del Gran Sasso, onde viria falecer. Em 25 de maio de 1861, recebeu as ordens menores na Catedral de Penne. Pelos arcanos desígnios da Providência, porém, não chegaria a tornar-se presbítero.

No final desse mesmo ano, uma terrível tuberculose o acometeu. Ora, longe de impedir-lhe o avanço nas vias da virtude, a fatal enfermidade servia-lhe para escalar com mais rapidez os píncaros da santidade. Deus dispôs que ele fosse sendo consumido aos poucos pela doença, para aumentar-lhe os méritos e dar aos outros ocasião de se edificarem com seu exemplo.

No leito de morte, restava-lhe ainda enfrentar o pior drama da sua vida: os derradeiros assaltos do demônio e a terrível provação decorrente de uma "noite escura da alma".19 Entretanto, também dessa última prova saiu vencedor. O sacerdote que lhe prestava assistência na hora suprema ouviu- o repetir três vezes, em curtos intervalos de tempo, esta frase de São Bernardo, pela qual ele reconhecia diante de Deus sua própria fraqueza: "Vulnera tua, merita mea. Meus méritos são vossas chagas, Senhor!".20

Na manhã de 27 de fevereiro de 1862, com o coração transbordante de alegria, as mãos cruzadas sobre o peito, apertando o crucifixo e a imagem da Virgem Dolorosa, Gabriel sorriu pela última vez, extasiado, ao contemplar com os olhos da alma Aquela a quem servira na Terra com tanta doçura. O "santo do sorriso" tinha, então, apenas 24 anos de idade.

No sesquicentenário de sua morte, São Gabriel de Nossa Senhora das Dores continua sendo, para a juventude atual, um inapreciável exemplo de renúncia intransigente ao pecado, de amor entusiasmado à Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e de devoção entranhada a Maria Santíssima. (Revista Arautos do Evangelho, Fev/2012, n. 122, p. 32 à 35)


São Gabriel e Santa Gemma Galgani

CREDO DA VIRGEM MARIA ( São Gabriel das dores )

“Creio, oh Maria, que, como Vós mesma revelastes a Santa Brígida, sois Rainha do céu, Mãe de misericórdia, alegria dos justos e guia dos pecadores arrependidos; e que não há homem tão perverso que, enquanto viva, não tenhais misericórdia dele; e que ninguém abandonou tanto a Deus, que, se vos invoca, não possa voltar a Deus e encontrar perdão, enquanto que sempre será um desgraçado aquele que, podendo, não recorra a Vós.
Creio que sois a Mãe de todos os homens, aos que recebestes como filhos, na pessoa de João, conforme o desejo de Jesus.
Creio que sois, como declarastes a Santa Brígida, a Mãe dos pecadores que querem corrigir-se, e que intercedeis por toda alma pecadora ante o trono de Deus, dizendo: Tende compaixão de mim.
Creio que sois nossa vida, e unindo-me a Santo Agostinho, vos aclamarei como única esperança dos pecadores depois de Deus.
Creio que estais, como vos via Santa Gertrudes, com o manto aberto, e que sob ele se refugiam muitas feras: leões, ursos, tigres, etc., e que Vós, em lugar de espantá-las, as acolheis com piedade e ternura.
Creio que através de Vós nós recebemos o dom da perseverança: se vos sigo, não me desencaminharei; se acudo a Vós, não me desesperarei; se Vós me sustentais, não cairei; se Vós me protegeis, não temerei; se vos sigo a Vós, não me cansarei; se vos alcanço, me recebereis com amor.
Creio que Vós sois o sopro vivificante dos cristãos, seu auxílio e seu refúgio, especialmente na hora da morte, como dissestes a Santa Brígida, pois não é costume vosso abandonar a vossos devotos na hora da morte, como assegurastes a São João de Deus.
Creio que Vós sois a esperança de todos, sobretudo dos pecadores; Vós sois a cidade de refúgio, em particular dos que carecem de ajuda e socorro.
Creio que sois a protetora dos condenados, a esperança dos desesperados, e como ouviu Santa Brígida que Jesus vos dizia, até para o próprio demônio obterias misericórdia se humildemente vo-la pedisse. Vós não rejeitais a nenhum pecador, por carregado de desculpas que se encontre, se recorre à vossa misericórdia. Vós com vossa mão maternal o tiraríeis do abismo do desespero, como diz São Bernardo.
Creio que Vós ajudais a quantos vos invocam e que mais solícita sois para alcançar-nos graças, que nós para vos pedi-las.
Creio que, como dissestes a Santa Gertrudes, acolheis sob vosso manto a quantos acodem a Vós, e que os Anjos defendem vossos devotos contra os araques do inferno. Vós saís ao encontro de quem vos busca e também, sem que se vos peça, dispensais muitas vezes vossa ajuda e creio que serão salvos os que Vós queirais que se salvem.
Creio que, como revelastes a Santa Brígida, os demônios fogem, ao ouvir vosso nome, deixando a alma em paz. Associo-me a São Jerônimo, Epifânio, Antonino e outros, para afirmar que vosso nome desceu do céu, e vos foi imposto por ordem de Deus.
Declaro que sinto com Santo Antônio de Pádua as mesmas doçuras ao pronunciar vosso nome que as que São Bernardo sentia ao pronunciar o de vosso Filho. Vosso nome, oh Maria, é melodia para os ouvidos, mel para o paladar, júbilo para o coração.
Creio que não há outro nome, fora do de Jesus, tão transbordante de graça, esperança e suavidade para os que invocam. Estou convencido com São Boaventura de que vosso nome não se pode pronunciar sem algum fruto espiritual. Tenho por certo que, como revelastes a Santa Brígida, não há no mundo alma tão fria em seu amor, nem tão afastada de Deus, que não se veja livre do demônio se invoca vosso santo nome.
Creio que vossa intercessão é moralmente necessária para salvar-nos, e que todas as graças que Deus dispensa aos homens passam por vossas mãos, e que todas as misericórdias divinas se dão por mediação vossa, e que ninguém pode entrar no céu sem passar por Vós, que sois a porta.
Creio que vossa intercessão é, não somente útil, mas moralmente necessária.
Creio que Vós sois a cooperadora de nossa justificação; a reparadora dos homens, corredentora de todo o mundo.
Creio que quantos não recorram a Vós, como arca de salvação, perecerão no tempestuoso mar deste mundo. Ninguém se salvará sem vossa ajuda.
Creio que Deus estabeleceu não conceder graça alguma a não ser por vosso conduto; que nossa salvação está em vossas mãos e que quem pretende obter graça de Deus sem recorrer a Vós, pretende voar sem asas.
Creio que quem não é socorrido por Vós, recorre em vão aos demais santos: o que eles podem convosco, Vós podeis sem eles; se Vós calais, nenhum santo intercederá; se Vós intercedeis, todos os santos se unirão a Vós. Proclamo-vos com São Tomás como a única esperança de minha vida, e creio com Santo Agostinho que somente Vós sois solícita por nossa eterna salvação.
Creio que sois a tesoureira de Jesus e que ninguém recebe nada de Deus, senão por vossa mediação: encontrando a Vós encontra-se todo o bem.
Creio que um de vossos suspiros vale mais que todos os rogos dos santos, e que sois capaz de salvar a todos os homens.
Creio que sois advogada tão piedosa, que não rejeitais defender aos mais infelizes. Confesso com Santo André de Creta que sois a reconciliadora celestial dos homens.
Creio que sois a pacificadora entre Deus e os homens e que sois o chamariz divino para atrair os pecadores ao arrependimento, como Deus mesmo revelou a Santa Catarina de Sena. Como o ímã atrai o ferro, assim atraís Vós aos pecadores, como assegurastes a Santa Brígida. Vós sois toda olhos, e toda coração para ver nossas misérias, compadecer de nós e socorrer-nos.
Chamar-vos-ei, pois, com Santo Epifânio: “A cheia de olhos”. E isto confirma aquela visão de Santa Brígida, na qual Jesus lhe disse: “Pedi-me, Mãe, o que quiserdes”. E Vós lhe respondestes: “Peço misericórdia para os pecadores”.
Creio que a misericórdia divina que tivestes com os homens quando vivíeis sobre a terra, inata em Vós, agora no céu se vos aumentou na mesma proporção que o sol é maior que a lua, como opina São Boaventura. E que, assim como não há no firmamento e na terra corpo que não receba alguma luz do sol, tampouco há no céu nem na terra alma que não participe de vossa misericórdia.
Creio também com São Boaventura, que não só vos ofendem os que vos injuriam, mas também os que não vos pedem graças. Quem vos obsequia não se perderá, por pecador que seja; ao contrário, como assegura São Boaventura, quem não é devoto vosso, perecerá inevitavelmente. Vossa devoção é o ingresso do céu, direi com Efrém.
Creio que, como revelastes a Santa Brígida, sois a Mãe das almas do purgatório, e que suas penas são abrandadas por vossas orações. Portanto afirmo com Santo Afonso que são muito afortunados vossos devotos e com São Bernardino que Vós livrais a vossos devotos das chamas do purgatório.
Creio que Vós, quando subíeis ao céu, pedistes, e obtivestes sem nenhuma dúvida, levar convosco ao céu todas as almas que então se achavam no purgatório.
Creio também que, como prometestes ao Papa João XXII, livrais do purgatório no sábado seguinte à sua morte aos que portarem vosso escapulário do Carmo. Mas vosso poder vai introduzindo no céu a quantos queirais. Por Vós se enche o céu e fica vazio o inferno.
Creio que os que se apoiam em Vós não cairão em pecado, que os que vos honram alcançarão a vida eterna. Vós sois o piloto celestial, que conduzis ao porto da glória a vossos devotos na nacela de vossa proteção, como dissestes a Santa Maria Madalena de Pazzi. Afirmo o que assegura São Bernardo: O professar-vos devoção é sinal certo de predestinação, e também a afirmação do abade Guerrico: Quem vos tem um amor sincero, pode estar tão certo de ir ao céu, como se já estivesse nele.
Creio com Santo Agostinho que não há santo tão compassivo como Vós: dais mais do que se vos pede; vais em busca do necessitado, buscais a quem salvar: Muitas vezes salvais aos mesmos que a justiça de vosso Filho está a ponto de condenar, como ensina o Abade de Celes. Portanto, estou convencido da verdade que se contem na visão que teve Santa Brígida: Jesus vos dizia: “Se não se interpusessem vossas orações, não haveria neste caso nem esperançanem misericórdia”. Opino também com São Fulgêncio, que se não fosse por Vós, a terra e o céu teriam sido destruídos por Deus.
Creio, como revelastes a Santa Matilde, que éreis tão humilde que, apesar de ver-vos enriquecida de dons e graças celestiais inumeráveis, não vos preferiríeis a ninguém. E que, como dissestes a Santa Isabel, Beneditina, vos julgáveis viliscima serva de Deus e indigna de sua graça.
Creio que por vossa humildade, ocultastes de São José vossa maternidade, ainda que aparentemente parecesse necessário manifestá-la, e que servistes a Santa Isabel e que na terra buscastes sempre o último lugar.
Creio que, como revelastes a Santa Brígida, tivestes tão baixo conceito de Vós mesma porque sabíeis que tudo havíeis recebido de Deus, por isso em nada buscastes vossa glória, mas a de Deus unicamente.
Creio com São Bernardo que nenhuma criatura do mundo é comparável convosco em humildade.
Creio que o fogo do amor, que ardia em vosso coração para com Deus era de tanto calor, que num instante poderia acender em fogo e consumir o céu e a terra, e que em comparação com vosso amor, o dos santos era frio.
Creio que cumpristes com perfeição o preceito do Senhor “Amar a Deus”, e que desde o primeiro instante de vossa existência, vosso amor a Deus foi superior ao de todos os anjos e serafins. Creio que devido a este intenso amor vosso a Deus, jamais fostes tentada, e que nunca tivestes um pensamento que não fosse para Deus, nem dissestes palavra que não fosse dirigida a Deus.
Creio com Suárez, Ruperto, Sã Bernardino e Santo Ambrósio, que vosso coração amava a Deus, ainda quando vosso corpo repousava, de maneira que se vos pode aplicar o que diz a Sagrada Escritura: “eu durmo, mas meu coração vela”, e que enquanto vivíeis na terra, vosso amor a Deus nunca foi interrompido. Creio que amastes ao próximo com tal perfeição, que não haverá quem o tenha amado mais, excetuando vosso Filho. E que ainda que se reunisse o amor de todas as mães para com seus filhos, dos esposos e esposas entre si, de todos os santos e anjos do céu, seria este amor inferior ao que Vós professais a uma só alma.
Creio que tivestes, como diz Suárez, mais fé que todos os Anjos e Santos juntos: ainda quando duvidaram os Apóstolos, Vós não vacilastes. Chamar-vos-ei, pois, com São Cirilo “Centro da fé ortodoxa”.
Creio que sois a Mãe da Santa Esperança e modelo perfeito de confiança em Deus. Que fostes mortificadíssima, tanto que, como dizem Santo Epifânio e São João Damasceno, tivestes sempre o olhar abaixado, sem fixa-los jamais em pessoa alguma.
Creio no que dissestes a Santa Isabel, Beneditina: que não tivestes nenhuma virtude sem haver trabalhado para possui-la, e com Santa Brígida creio que compartistes todas as vossas coisas entre os pobres, sem reservar-vos para Vós mais que o estritamente necessário.
Creio que desprezáveis as riquezas mundanas.
Creio que fizestes voto de pobreza.
Creio que vossa dignidade é superior a todos os anjos e santos e que é tanta vossa perfeição, que só Deus pode conhecê-la.
Creio que depois de Deus, é ser Mãe de Deus, e que, portanto, não pudestes estar mais unida a Deus sem ser o próprio Deus, como dizia Santo Alberto.
Creio que a dignidade de Mãe de Deus é infinita e única em seu gênero e que nenhuma criatura pode subir mais alto. Deus poderia haver criado um mundo maior, mas não pôde haver formado criatura mais perfeita que Vós.
Creio que Deus vos há enriquecido com todas as graças e dons gerais e particulares que conferiu a todas as demais criaturas juntas.
Creio que vossa beleza sobrepassa à de todos os homens e os Anjos, como revelou o Senhor a Santa Brígida.
Creio que vossa beleza afugentava todo movimento de impureza e inspirava pensamentos castos.
Creio que fostes menina, mas de menina só tivestes a inocência, não os defeitos da infantilidade.
Creio que fostes virgem antes de dar a luz, ao dar a luz e depois de dar a luz; fostes mãe sem a esterilidade da virgem, sem deixar por isso de ser virgem. Trabalháveis, mas sem que a ação distraísse; oráveis, mas sem descuidar de vossas ocupações. Morrestes, mas sem angústia, nem dor nem corrupção de vosso corpo. Creio que, como ensina Santo Alberto, fostes a primeira a oferecer, sem conselho de ninguém, vossa virgindade, dando exemplo a todas as virgens, que vos hão imitado, e que Vós, diante de todas, portais o estandarte desta virtude. Por Vós se manteve virgem vosso castíssimo esposo, São José.
Creio também que estáveis resolvida a renunciar à dignidade de Mãe de Deus, antes de perder vossa virgindade. Direi com o Beato Alano, que praticar a devoção de saudar-te sempre com a Ave-Maria com o Rosário é um magnífico sinal de predestinação para a Glória.”

(Credo di Maria composto por São Gabriel da Virgem Dolorosa, noviço pertencente à Congregação da Paixão de Jesus Cristo – Passionistas)