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O Coronavírus e a mão de Deus – Entrevista ao Arcebispo Carlo Maria Viganò

segunda-feira, 30 de março de 2020

O Coronavírus e a mão de Deus – Entrevista ao Arcebispo Carlo Maria Viganò

O Dies Irae publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma entrevista do Arcebispo Carlo Maria Viganò.

Excelência, com que olhar deve o cristão avaliar a pandemia do COVID-19?
A pandemia do Coronavírus, como todas as doenças e a própria morte, são uma consequência do Pecado Original. A culpa de Adão, cabeça da humanidade, privou-o a ele e aos seus descendentes não apenas da Graça, mas também de todos os dons que Deus lhe tinha dado na Criação. A partir desse momento, a doença e a morte entraram no mundo, qual punição por ter desobedecido a Deus. A Redenção anunciada no Protoevangelho (Gn 3), profetizada no Antigo Testamento e concretizada com a Encarnação, a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Nosso Senhor, redimiu da condenação eterna Adão e a sua descendência, mas permitiu que as suas consequências permanecessem como marca da antiga queda e fossem definitivamente readmitidas apenas à Ressurreição da Carne, que professamos no Credo, e que ocorrerá antes do Juízo final. Isso deve ser recordado, especialmente num momento em que os princípios basilares do Catecismo são ignorados ou negados.

O católico sabe que a doença e, portanto, também as epidemias, o sofrimento, a privação dos entes queridos, devem ser aceites com Fé e Humildade também em expiação dos nossos próprios pecados. Graças à Comunhão dos Santos – através da qual os méritos de cada baptizado se transmitem também aos outros membros da Igreja –, podemos oferecer tais provas também para o perdão dos pecados dos outros, para a conversão daqueles que não crêem, para abreviar a purificação das almas santas do Purgatório. Um infortúnio como o COVID-19 também pode ser uma preciosa oportunidade para crescer na Fé e na Caridade operosa.

Como se pode ver, limitar-se ao aspecto meramente clínico da doença – que obviamente deve ser combatida e curada – tira qualquer dimensão transcendente à nossa vida, privando-a daquele olhar sobrenatural sem o qual é inevitável fechar-se num egoísmo surdo e sem esperança.

Alguns membros da Hierarquia e sacerdotes afirmaram que «Deus não pune» e que considerar o Coronavírus como um flagelo «é uma ideia pagã». Está de acordo?
A primeira punição, como dizia há pouco, foi infligida ao nosso Progenitor. Mas, como diz o Exultet que entoaremos na noite de Sábado Santo: O felix culpa, qui talem ac tantum meruit habere Redemptorem! Oh ditosa culpa, que nos mereceu tão grande Redentor!

Um pai que não pune demonstra não amar o filho, mas desinteressar-se por ele; um médico que observa indiferente o paciente piorando até à gangrena não quer a sua cura. O Senhor é um Pai muito amoroso porque nos ensina como nos devemos comportar para merecer a eterna beatitude do Céu, e quando, com o pecado, desobedecemos aos Seus preceitos, Ele não nos deixa morrer, mas vem-nos procurar, envia-nos muitos sinais – por vezes vezes severos, como é justo – para que nos arrependamos, façamos penitência e recuperemos a amizade com Ele. Vós sereis Meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando (Jo 15, 14). Parece-me que as palavras do Senhor não dão origem a mal-entendidos.

Gostaria também de acrescentar que a verdade de um Deus justo que recompensa os bons e pune os iníquos faz parte da herança comum à lei natural que o Senhor incutiu em todos os homens de todas as épocas: um chamamento irreprimível do Paraíso terrestre, que também permite que os pagãos compreendam como a Fé Católica é o necessário cumprimento daquilo que sugere um coração sincero e bem-disposto. Surpreende-me que hoje, em vez de se evidenciar esta verdade profundamente inscrita no coração de cada homem, aqueles que parecem ter tanta simpatia pelos cultos pagãos não aceitem a única coisa que, desde sempre, a Igreja considerou importante para atraí-los para Cristo.

Vossa Excelência acredita que existem pecados que provocaram, de modo particular, a ira de Deus?
Os crimes com que cada um de nós se mancha diante de Deus são um golpe de martelo nos pregos que perfuraram as Mãos do nosso Redentor, uma chicotada que rasgou a carne do Seu santíssimo Corpo, um escarro no Seu Rosto amoroso. Se tivéssemos este pensamento diante de nós, nenhum de nós ousaria pecar. E quem pecou, não pararia de chorar até ao fim dos seus dias. No entanto, esta é a realidade: na Sua Paixão, o nosso divino Salvador assumiu sobre Si não apenas o Pecado Original, mas também todos os nossos pecados, de todos os tempos e de todos os homens. E o mais maravilhoso é que Nosso Senhor quis enfrentar a morte na Cruz, quando uma única gota do Seu preciosíssimo Sangue seria suficiente para nos redimir: Cujus una stilla salvum facere totum mundum abit ab omni sclere, como nos ensina São Tomás.

Mas, para além dos pecados cometidos individualmente, também existem os pecados cometidos pelas sociedades, pelas Nações. O aborto, que também durante a pandemia continua a matar crianças inocentes; o divórcio, a eutanásia, o horror do chamado casamento homossexual, a celebração da sodomia e das piores perversões, a pornografia, a corrupção dos pequenos, a especulação das elites financeiras, a profanação do domingo...

Posso perguntar-lhe porquê que faz uma distinção entre culpas individuais e culpas das Nações?
São Tomás de Aquino ensina-nos que, tal como é dever do indivíduo reconhecer, adorar e obedecer ao verdadeiro Deus, também a sociedade – que é precisamente composta por indivíduos – não pode deixar de reconhecer Deus e garantir que as próprias leis permitam aos seus membros alcançar o bem espiritual a que se destinam. Nações que não apenas ignoram Deus, mas que O negam abertamente; que exigem que os seus súbditos aceitem leis contrárias à Moral natural e à Fé católica, como o reconhecimento dos direitos ao aborto, à eutanásia e à sodomia; que se esforçam pela corrupção das crianças, profanando a sua inocência; que permitem o direito a blasfemar contra a divina Majestade, não podem considerar-se isentas da punição de Deus. Assim, se quiserem obter perdão público, os pecados públicos requerem confissão pública e pública expiação. Não esqueçamos que a comunidade eclesial, também enquanto sociedade, onde os seus líderes sejam responsáveis por ofensas colectivas, não está isenta das punições celestiais.

Isso significa que também existem culpas da Igreja?
A Igreja é sempre em si mesma infalivelmente santa, uma vez que é o Corpo Místico de Nosso Senhor, e seria não só imprudente, mas também blasfemo só pensar que a divina instituição que a Providência colocou na terra como dispensadora da Graça e única arca de salvação possa, mesmo que minimamente, ser imperfeita. Os louvores que atribuímos à Santíssima Virgem – que é, de facto, Mater Ecclesiae – também se aplicam à Igreja: é mediadora das graças, através dos Sacramentos; é Mãe de Cristo, de Quem gera os membros; Arca da Aliança, ou seja, guardiã do Pão celestial e dos Mandamentos; a Igreja é refúgio dos pecadores, a quem concede o perdão na Confissão; saúde dos enfermos, a quem dispensa sempre os próprios cuidados; rainha da paz, que promove entre os povos pregando o Evangelho. Mas também é terribilis ut castrorum acies ordinata, porque o Senhor deu aos seus Ministros o poder de expulsar os demónios e a autoridade das Sagradas Chaves, graças às quais abre ou fecha as portas do Céu. E não esqueçamos que a Igreja não é apenas a Igreja Militante na terra, mas que também há a Igreja Triunfante e a Purgante, cujos membros são todos Santos.

Mas é verdade que, se a Igreja de Cristo é santa, também pode ser pecadora nos seus membros aqui na terra e também na sua Hierarquia. Nestes tempos difíceis, temos, infelizmente, numerosos exemplos de clérigos indignos, como os escândalos dos abusos por parte de clérigos e até mesmo de altos Prelados. A infidelidade dos Pastores Sagrados é um escândalo para os seus irmãos e para muitos fiéis, não apenas quando se trata da luxúria ou do desejo de poder, mas também – e eu diria acima de tudo – quando afecta a integridade da Fé, a pureza da doutrina e a santidade da moral, culminando mesmo em episódios de inaudita gravidade, como, por exemplo, no caso da adoração do ídolo da pachamama no Vaticano. De facto, creio que o Senhor está particularmente indignado com a multidão de pecados e escândalos daqueles que deveriam servir de exemplo e modelo, enquanto Pastores, para o rebanho que lhes foi confiado.

Não esqueçamos, para além disso, que o exemplo dado por grande parte da Hierarquia não é escandaloso apenas para os Católicos, mas também para muitas pessoas que, embora não tenham a graça de lhes pertencer, olham para eles como um farol e um ponto de referência. E não só: esse flagelo não pode eximir a Igreja, na sua própria Hierarquia, de realizar um severo exame de consciência por se ter rendido ao mundo; não pode fugir ao dever de condenar firmemente os erros que deixou desenfrear no seu seio a partir do Vaticano II e que atraíram, para a própria Igreja para o mundo, justas punições porque precisamos de nos arrepender e voltar a Deus.

Dói-me notar que ainda hoje, quando todos nós somos testemunhas da cólera divina que atinge o mundo, se continua a ofender a Majestade de Deus ao falar da «vingança da mãe terra que reclama respeito», como afirmou o Papa Bergoglio, há alguns dias, na sua enésima entrevista. Urge, em vez disso, pedir perdão pelo sacrilégio perpetrado na Basílica de São Pedro, reconsagrando-a, de acordo com as normas canónicas, antes de se celebrar novamente o Santo Sacrifício. E também se deveria realizar uma solene procissão penitencial, mesmo só de Prelados, conduzidos pelo Papa, para implorarem a misericórdia de Deus sobre si e sobre o povo. Seria um gesto de autêntica humildade, que muitos fiéis esperam, em reparação dos pecados cometidos.

Como conter a perplexidade pelas palavras proferidas, em Santa Marta, durante a homilia da Missa de 26 de Março, pelo Papa Bergoglio? O Papa disse: «Que o Senhor não nos encontre, no fim da vida, e diga de cada um de nós: “Deixaste-te perverter. Afastaste-te do caminho que Eu indiquei. Prostraste-te diante de um ídolo”». Ficamos completamente chocados e indignados ao ouvir estas palavras, considerando que ele mesmo consumou um verdadeiro sacrilégio diante de todo o Mundo, mesmo no Altar da Confissão de São Pedro, uma profanação, um acto de apostasia com o ídolo imundo e demoníaco da pachamama.

No dia da Anunciação de Maria Santíssima, os Bispos de Portugal e de Espanha consagraram as suas Nações ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria. A Irlanda e a Grã-Bretanha fizeram o mesmo. Muitas Dioceses e cidades, na pessoa dos seus Bispos e das Autoridades públicas, colocaram as suas comunidades sob a proteção da Virgem. Como avalia estes acontecimentos?
Estes são gestos que constituem um bom presságio, embora insuficientes para reparar as nossas culpas e até agora ignorados pelos líderes da Igreja, enquanto o povo cristão clama aos seus Pastores, em voz alta, por um gesto solene e colectivo. Nossa Senhora, em Fátima, pediu que o Papa e todos os Bispos consagrassem a Rússia ao Seu Imaculado Coração, anunciando infortúnios e guerras até que isso não acontecesse. Os Seus apelos continuam por ser atendidos. Os Pastores arrependam-se e obedeçam à Santíssima Virgem! É vergonhoso e escandaloso que a Igreja em Itália não se tenha unido a esta iniciativa!

Como vê a suspensão das celebrações que envolveu quase todo o mundo?
Este é um grande sofrimento, mais, eu diria o maior que se impôs aos nossos fiéis, especialmente aos moribundos, privando-os de recorrer aos Sacramentos.

Nestas situações, parecia que a Hierarquia, à excepção de raros casos, não tinha escrúpulos ao fechar as igrejas e impedir a participação dos fiéis no Santo Sacrifício da Missa. Mas esta atitude de burocratas frios, de executores da vontade do Príncipe, agora é compreendida pela maioria dos fiéis como um inquietante sinal da falta de Fé. E como podemos culpá-los?

Questiono-me – e tremo ao dizê-lo – se o encerramento das igrejas e a suspensão das celebrações não é uma punição que Deus acrescentou à pandemia. Ut scirent quia per quae peccat quis, para haec et torquetur. A fim de que compreendessem que por onde cada um peca, por aí será atormentado (Sab 11, 16). Ofendido pela negligência e desrespeito de tantos dos Seus Ministros; ultrajado pelas profanações do Santíssimo Sacramento, que se perpetuam diariamente com o sacrílego hábito de administrar a Comunhão na mão; cansado de suportar canções vulgares e sermões heréticos, o Senhor ainda hoje se compraz – no silêncio de muitos altares – em ouvir ser-Lhe elevado o louvor austero e composto de tantos sacerdotes que celebram a Missa de sempre, aquela Missa que remonta aos tempos apostólicos e que ao longo da história representa o coração palpitante da Igreja. Levemos muito a sério este aviso: Deus non irridetur.

Compreendo e partilho, evidentemente, o devido respeito pelos princípios básicos de proteção e segurança que a Autoridade civil estabelece para a saúde pública. Mas, assim como esta tem o direito de intervir em questões concernentes ao corpo, a Autoridade eclesiástica tem o direito e o dever de se ocupar da saúde das almas e não pode privar os seus fiéis do nutrimento da Santíssima Eucaristia, nem tampouco da Confissão, da Missa e do Sagrado Viático.

No entanto, quando as lojas e os restaurantes ainda estavam abertos, muitas Conferências Episcopais já tinham ordenado a suspensão das celebrações sem que as Autoridades civis o tivessem solicitado. Esta atitude revela a dolorosa situação em que se encontra a Hierarquia, disposta a sacrificar o bem das almas para agradar o poder do Estado ou a ditadura do pensamento único.

A propósito de restaurantes abertos: como é que vê os almoços para os pobres que foram realizados, nos últimos meses, em locais de culto?
Para o Católico, a assistência aos necessitados tem o próprio motor na virtude da Caridade, isto é, no próprio Deus: Deus caritas est. Ele ama o Senhor acima de todas as coisas, e o próximo como a si mesmo, porque nos permite – de acordo com as Bem-Aventuranças evangélicas – ver Cristo no pobre, no enfermo, no preso, no órfão. A Igreja sempre foi, desde o início, um brilhante exemplo neste sentido, a ponto de os próprios pagãos se sentirem edificados. A História atesta as impressionantes obras de assistência estabelecidas graças à munificência dos seus fiéis, mesmo em tempos de aberta hostilidade do Estado, que apreendeu os bens das fundações pelo ódio que a Maçonaria tinha em relação a um testemunho tão claro dos Católicos. A atenção aos pobres e marginalizados, portanto, não é nova no novo caminho bergogliano, apanágio de organizações ideologicamente alinhadas.

Mas é significativo que a ênfase em ajudar os pobres se revele não apenas privada de qualquer referência sobrenatural, mas que se limite às obras da misericórdia corporal, evitando meticulosamente as de misericórdia espiritual. E não só: este último Pontificado ratificou definitivamente a renúncia ao apostolado, à missionariedade da Igreja também neste contexto, liquidando-a com o termo depreciativo de proselitismo. Pensa-se em oferecer alimentos, hospitalidade e assistência médica, mas não nos preocupamos em alimentar, acolher e curar na alma aqueles que precisam, reduzindo, assim, a Igreja a uma ONG com propósitos filantrópicos. Mas a Caridade não é uma variação da filantropia de inspiração maçónica, apenas encoberta por uma vaga espiritualidade, mas o seu exacto oposto; porque a solidariedade hoje praticada nega que exista apenas uma Religião verdadeira e que a sua mensagem salvadora deva, portanto, ser pregada àqueles que ainda não fazem parte dela. E não só: devido aos desvios que entraram na Igreja com o Concílio em matéria de liberdade religiosa e ecumenismo, os órgãos de assistência social acabam por confirmar as pessoas que lhes foram confiadas no erro do paganismo ou do ateísmo, chegando ao ponto de oferecer locais de culto onde possam rezar. Também vimos casos deploráveis de Missas durante as quais, a pedido do sacerdote, em vez do Evangelho foi proclamado o Alcorão ou, para retomar casos recentes, foi dada a oportunidade de praticar rituais idólatras numa igreja católica.

Acredito que a decisão de destinar as igrejas para refeitórios ou dormitórios para acolher pessoas necessitadas é um fenómeno revelador dessa hipocrisia subjacente que, como no caso do ecumenismo, usa um pretexto aparentemente louvável – ajudar os necessitados, acolher os refugiados etc. – como instrumento para realizar progressivamente o sonho maçónico de uma grande religião universal sem dogmas, sem ritos, sem Deus. Usar uma igreja como taberna, na presença de Prelados satisfeitos que servem pizzas ou costeletas com roupas e avental riscados, significa profaná-la; especialmente quando os que sorriem para os fotógrafos tomam cuidado para não abrir as portas do Palácio Episcopal àqueles que, no fundo, consideram úteis para a prossecução de outros propósitos. Regressando ao que disse anteriormente, parece-me que mesmo estes sacrilégios estão na origem da pandemia e no encerramento das igrejas.

Parece-me também que, com muita frequência, se tenta fazer um espectáculo com a pobreza ou o estado de necessidade de tantas pessoas infelizes – como no caso dos desembarques de imigrantes ilegais transportados por organizações de verdadeiros esclavagistas – com o único objectivo de pôr em movimento a indústria da hospitalidade, por trás da qual se escondem não apenas mesquinhos interesses económicos, mas também uma não confessada cumplicidade com aqueles que querem a destruição da Europa cristã a começar pela Itália.

Em alguns casos – por exemplo em Itália, em Cerveteri – as forças policiais interromperam a celebração de uma Missa. Como se coloca a Autoridade Eclesiástica diante destes episódios?
O caso de Cerveteri foi provavelmente um excesso de zelo por parte de dois polícias municipais, certamente stressados pelo clima alarmante que surgiu no início da epidemia. Mas deve ficar claro que, especialmente numa nação como Itália – em que existe uma Concordata entre a Igreja Católica e o Estado –, a autoridade em locais de culto é exclusivamente reconhecida à Autoridade eclesiástica e, portanto, teria sido mais do que necessário que a Santa Sé e o Ordinário local protestassem firmemente por uma violação do Pacto de Latrão, confirmado em 1984 e ainda válido. Mais uma vez, o exercício da autoridade por parte dos Pastores – que deriva directamente de Deus – dissolve-se como neve ao sol, demonstrando uma pusilanimidade que poderia um dia autorizar abusos muito piores. Aproveito esta ocasião para solicitar uma condenação muito firme destas interferências intoleráveis por parte da Autoridade civil em questões de imediata e directa competência da Autoridade Eclesiástica.

O Papa Francisco convidou, a 25 de Março, todos os Cristãos, independentemente de serem ou não Católicos, a rezarem o Pater noster, pedindo a Deus o fim da pandemia, e deu a entender que mesmo aqueles que professam outras religiões poderiam unir-se à sua oração.
O relativismo religioso insinuado pelo Concílio eliminou a persuasão de que a Fé Católica é o único caminho de salvação e que o Deus Uno e Trino que adoramos é o único Deus verdadeiro.

O Papa Bergoglio declarou, na Declaração de Abu Dhabi, que todas as religiões são desejadas por Deus: esta não é apenas uma heresia, mas uma forma de gravíssima apostasia e uma blasfémia. Porque dizer que Deus aceita ser adorado, independentemente de como se tenha revelado, significa frustrar a Encarnação, a Paixão, a Morte e a Ressurreição do nosso Salvador. Significa inutilizar o propósito pelo qual existe a Igreja, a razão pela qual milhões de Mártires deram as suas vidas, por que existem os Sacramentos, o Sacerdócio e o próprio Papado.

Infelizmente, justamente quando se deveria expiar o ultraje à Majestade de Deus, há quem peça para Lhe rezar juntamente com aqueles que se recusam a honrar a Sua Santíssima Mãe no dia da sua festa. É este o modo mais apropriado para obter o fim da peste?

Contudo, também é verdade que a Penitenciária Apostólica concedeu particulares Indulgências para os afectados pelo contágio e para os que assistem física e espiritualmente os doentes.
Antes de mais, é necessário reafirmar vigorosamente que não é possível substituir com as Indulgências os Sacramentos. É necessário opor-se com a máxima firmeza às más decisões de alguns Pastores que recentemente proibiram os seus sacerdotes de ouvir as Confissões ou de administrar o Baptismo. Estas disposições – juntamente com a proibição de celebrar Missa e a suspensão das Comunhões – são contra o direito divino e demonstram que Satanás está por trás de tudo isto. Somente o Inimigo pode inspirar medidas que provocam a perda espiritual de tantas almas. É como se os médicos tivessem ordens de não dar os tratamentos vitais aos pacientes em perigo de vida.

O exemplo do Episcopado polaco, que ordenou multiplicar as Missas para permitir a participação dos fiéis sem risco de contágio, deve ser assumido por toda a Igreja, caso a sua Hierarquia ainda tenha no coração o desejo da eterna salvação do povo cristão. E é significativo que, precisamente na Polónia, o impacto da pandemia seja inferior ao de outras nações.

A doutrina das Indulgências sobrevive aos ataques dos modernistas e essa é uma boa coisa. Mas se o Romano Pontífice tem o poder de tirar pleno proveito do inesgotável tesouro da Graça, também é verdade que as Indulgências não podem ser banalizadas, nem consideradas como se fossem saldos de fim de estação. Os fiéis também tiveram uma impressão semelhante por ocasião do último Jubileu da Misericórdia, para o qual a Indulgência Plenária foi concedida em tais condições, de modo a atenuar a consciência da sua importância naqueles que dela lucravam.

Também se coloca o problema da Confissão sacramental e da Comunhão eucarística exigidas para se beneficiar das Indulgências, mas que nas normas emitidas pela Sagrada Penitenciária aparecem sine die com um genérico «assim que lhes seja possível».

Acredita que as dispensas específicas relativas à Absolvição geral em vez da Absolvição individual possam aplicar-se à epidemia presente?
A iminência da morte legitima o recurso a soluções que a Igreja, no seu zelo pela salvação eterna das almas que lhe foram confiadas, sempre concedeu generosamente, como no caso da Absolvição geral que é dada aos militares antes de um ataque ou, por exemplo, a quem se encontra num navio a afundar. Se a emergência de uma unidade de cuidados intensivos não permite a entrada do Sacerdote, a não ser em momentos limitados, e nestas situações não é possível ouvir as Confissões individuais dos moribundos, acredito que a solução proposta seja legítima.

Mas se esta norma quer criar um perigoso precedente para posteriormente alargá-lo ao uso comum, sem que haja perigo iminente para a vida do penitente, será necessário vigiar com a máxima atenção para que o que a Igreja concede magnanimemente para casos extremos não se torne uma norma.

Recordo também que as Missas transmitidas in streaming ou pela televisão não cumprem o preceito festivo. São uma maneira louvável de santificar o dia do Senhor quando é impossível ir à igreja. Mas deve ficar claro que a prática sacramental não pode ser substituída pela virtualização do sagrado, assim como é evidente que na ordem natural não se pode nutrir o corpo observando a imagem de um alimento.

Qual é a mensagem de Vossa Excelência para aqueles que hoje têm a responsabilidade de defender e guiar o rebanho de Cristo?
É indispensável e inadiável uma real conversão do Papa, da Hierarquia, dos Bispos e de todo o clero, bem como dos Religiosos. Os leigos reivindicam-na enquanto sofrem à mercê da confusão pela falta de guias fiéis e seguros. Não podemos permitir que o rebanho que o divino Pastor nos confiou para governar, proteger e conduzir à salvação eterna seja dispersado por mercenários infiéis. Devemos converter-nos, voltar a ser totalmente de Deus, sem compromissos com o mundo.

Os Bispos devem recuperar a consciência da própria Autoridade Apostólica, que é pessoal, que não pode ser delegada a sujeitos intermediários, como as Conferências Episcopais ou os Sínodos, que distorceram o exercício do ministério apostólico, causando graves danos à constituição divina da Igreja como Cristo a quis.

Basta de caminhos sinodais, basta de uma incompreendida colegialidade, basta deste absurdo sentido de inferioridade e cortesia em relação ao mundo; basta do uso hipócrita do diálogo em vez do intrépido anúncio do Evangelho; basta de ensinamentos de falsas doutrinas e do medo de pregar a pureza e a santidade de vida; basta dos terríveis silêncios diante da arrogância do Mal. Chega de cobertura de ignóbeis escândalos: chega de mentiras, de decepções e de vinganças!

A vida cristã é uma milícia, não um passeio despreocupado em direcção ao abismo. A cada um de nós, em virtude da Ordem Sagrada que recebemos, Cristo pede contas das almas que salvamos e das que perdemos por não as termos avisado e ajudado. Voltemos à integridade da Fé, à santidade dos costumes, ao verdadeiro Culto agradável a Deus.

Conversão e penitência, portanto, como nos exorta a Santíssima Virgem, Mãe da Igreja. A Ela, tabernáculo do Altíssimo, peçamos que inspire nos Pastores esse ímpeto heróico pela salvação da Igreja e pelo triunfo do Seu Imaculado Coração.

I Domingo da Paixão de 2020

Por Dies Iræ a março 30, 2020