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Frank Matos
Padre Paulo Ricardo - A providência divina (Ouça). Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Mateus (Mt, 10, 26-33) Neste Domingo, Jesus envia os Seus apóstolos em missão (a palavra “apóstolo” …More
Padre Paulo Ricardo - A providência divina (Ouça).

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo
Mateus (Mt, 10, 26-33)

Neste Domingo, Jesus envia os Seus apóstolos em missão (a palavra “apóstolo” quer dizer justamente isto: enviado), pedindo-lhes que confiem inteiramente na providência divina. Ele tem consciência de que a situação não é fácil. No mesmo capítulo, um pouco antes, adverte: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos” [1]. Mesmo assim, Ele pede três vezes aos discípulos para que não tenham medo.
Ora, por que confiar? Para convencer os Seus, Jesus usa um argumento a fortiori: “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.
Ao falar da providência, é importante usar a distinção que faz Santo Tomás de Aquino:
“Duas coisas cabem à providência: a razão da ordem dos seres a quem ela provê, a um fim; e a execução dessa ordem, a que se chama governo. — Quanto à primeira, Deus, que tem no seu intelecto a razão de todos os seres, mesmo dos mínimos, a todos provê imediatamente. E preestabelecendo certas causas a certos efeitos, deu-lhes a virtude de os produzir. Logo, é necessário nele preexista a razão da ordem desses efeitos. — Quanto à segunda, a providência, que governa os inferiores pelos superiores, emprega certos seres médios; não por defeito do seu poder, mas pela abundância da sua bondade, que comunica a dignidade de causa, mesmo às criaturas.” [2]
Ao colocar em ação (=governo) o Seu plano de amor (=razão) para as criaturas, Deus nem sempre o faz de modo imediato, mas age por meio de outros seres. Ele ama diretamente a todos, tem uma providência para cada um e cuida dos mínimos detalhes de sua existência, mas, ao executar seu projeto, fá-lo por mediadores. Por exemplo, quando uma pessoa tem um cachorro de estimação, ela é um instrumento da providência divina para aquele animal, assim como Deus se utiliza de Seus anjos, de Seus santos e até mesmo de outras pessoas para cuidar de nós. Às vezes, esperamos que o Senhor faça milagres em nossas vidas, mas não nos atentamos àquilo que Ele mesmo faz por meio dos que nos são próximos. Se, por exemplo, alguém passa fome e suplica a Deus que lhe mande comida, é claro que o Todo-Poderoso pode, milagrosamente, fazer que a sua farinha não acabe e que a sua ânfora de azeite não se esvazie, como fez à viúva de Sarepta [3]; mas Ele também pode providenciar alguém generoso que lhe dê de comer – e, diga-se de passagem, é assim que Ele geralmente prefere agir.
É certo, de qualquer modo, que nos devemos abandonar à providência de Deus. Mas, como fazer isso? Por certo, não devemos “cruzar os braços”, descuidando de nossos deveres de estado e fugindo de nossas responsabilidades. É preciso, antes, cumprir aquela vontade divina que já nos foi manifestada – que o Aquinate chama de “vontade de sinal” – e, depois, confiar na vontade de Deus propriamente dita, que nos é oculta e que Tomás chama de “vontade de beneplácito” [4].
É sabido, por exemplo, que as tribulações que Ele permite que nos advenham nem sempre são para castigar-nos por nossos pecados. Podem ser para purificar o nosso amor. Isto depende do estado em que se encontra a nossa alma.
São Paulo escreve que “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios” [5]. E ainda: “Não só isso, mas nos gloriamos até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança. E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” [6]. Também Santo Tomás, ao comentar o livro de Jó, antecipa o que São João da Cruz escreve no século XVI: que Deus permite purificações passivas na vida daqueles que O amam.
Agora, se não amamos a Deus, nem tudo concorre para o nosso bem. E isto, não por culpa divina, mas por causa de nós mesmos, que nos fechamos à Sua graça. Um dos sinais de que uma pessoa está caminhando para a perdição eterna é a sua constante revolta contra Deus em meio as tribulações. Quem age deste modo é “forte candidato” a ser réprobo, pois está frequentemente tratando Deus como inimigo.
Diante das cruzes que o Senhor permite que nos venham, precisamos nos purificar. No começo, sofremos mais. Mas, com o tempo, percebemos que Ele age “ad dirigendos pedes nostros in viam pacis – para dirigir os nossos passos, guiando-os no caminho da paz” [7], como rezamos no Benedictus.
Aproveitemos este Domingo para rezar este belo Ato de Abandono à divina providência:
Ato de Abandono
Frei Réginald Marie Garrigou-Lagrange, O.P.
Em vossas mãos, ó meu Deus, eu me entrego.
Virai e revirai esta argila,
sicut lutum in manu figuli (Jeremias 18, 6),
como a vasilha que se modela nas mãos do oleiro.
Dai-lhe forma;
e em seguida despedaçai-a, se assim quiserdes;
ela vos pertence, e nada tem a dizer.