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São Nicolau tinha barba?

No início dos anos quarenta, Isidoro Zorzano descobriu um câncer que em pouco tempo o levaria à morte. Sua união com Deus cresceu, de dia para dia, durante sua a prolongada agonia. Este artigo relata como foi o dia em que recebeu a Unção dos enfermos, já gravemente doente.

RECURSOS15/04/2021

A partir de Quinta-Feira da Paixão (15 de abril), durante várias semanas Isidoro só poderá ingerir iogurte e fruta cozida. Nessa noite, dão-lhe ainda um prato de croquetes. Comê-los pressupõe um martírio, que oferece pelos apostolados do Opus Dei.

O seu acompanhante diz: “Isidoro, como a Obra cresce à força de croquetes!”[1] .

Zorzano assente: “Quem diria! Aqui não se desperdiça nada!”.

De qualquer modo, a enfermeira acha que comeu pouco e diz ao médico que só tomou quatro croquetes. Isidoro, bom contabilista, sorri, e com voz apagada, especifica: “Cinco”. E recorda que os comeu cortados pela metade: “Dois vezes cinco, dez”.

A digestão do “banquete” impede-o de dormir e o acompanhante exagera – desta vez por excesso – o apetite do enfermo: a causa da insônia deve ser o “caldo, que você tomou todo”. Mas Zorzano também não deseja elogios imerecidos: “Não, todo não; três colheradas”.

A enfermeira recorda-lhe que na noite anterior conseguiu conciliar o sono. Isidoro continua a brincar: “Teria menos preocupações…”. Mas – para que não o levem a sério – esclarece: “Nem ontem nem hoje tenho nenhuma”.

Quando a enfermeira se vai, sugere: “Vamos rezar as Preces”. Depois recita, como sempre, as três Ave-Marias com os braços abertos de par em par; faz o seu exame de consciência, com o crucifixo nas mãos; e asperge, como costuma, um pouco de água-benta sobre a cama.

As horas passam lentamente. O acompanhante repara que Zorzano está com muita dificuldade em respirar; e manda vir a enfermeira, que chama o médico. O doente verifica que horas são e lamenta: “Pobre doutor! E eu, sempre exigente. Que chatinho é o Eng. Isidoro!”.

Superada a crise, continua a noite interminável. Isidoro fala, em voz baixa e muito devagar: “Estou quase indo para a outra Casa: é apenas uma mudança de casa… Tenho que pôr muitas coisas em ordem…”. E volta a cabeça para pedir orações: quando tiver morrido, “lembrem de mim”.

As suas palavras entrecortadas são muito serenas: “É uma mudança de casa, só uma mudança de casa… Há muitas coisas para providenciar: a aprovação de Roma… não será antes do fim do ano…”.

Continua a pensar na casa do Céu. De repente, diverte-o uma ideia: “Uma das primeiras coisas a fazer quando chegar é procurar que me apresentem a São Nicolau[2]. “Vou saber como é a cara dele!”. “Deve estar – diz – chateado com Fernando”, que umas vezes o pinta com barba e outras sem. Depois resolver esta dúvida, “terei que explicar muitas coisas a São Nicolau…[3].

Terá que informar o Santo Bispo “de algumas coisas”, dificuldades econômicas, das quais “parece que não quis ficar sabendo[4].

Finalmente, amanhece o dia 16. Estão lendo o Evangelho “Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus…” (Mt 18, 3), quando chega o Padre, que traz a Comunhão. Vem acompanhado por Álvaro e Ricardo.

Às nove e meia da manhã, há substituição do acompanhante: chega José Javier López Jacoiste. Leem um livro sobre a Santíssima Virgem. Depois conversam. Isidoro cansa-se muito e o seu coração bate acelerado. Dão-lhe uma injeção e continua a conversa[5]. Com José Maria Albareda, que o visita, falam sobre o andamento da guerra e sobre outras notícias: acaba de ser inaugurada a linha férrea Santiago-La Corunha. Zorzano, como especialista na matéria, explica as peripécias dessa obra[6].

De novo a sós com José Javier, pouco antes do meio-dia, a respiração de Isidoro torna-se mais angustiosa: “Por momentos, sinto que o Senhor me chama (…). Tira fortaleza da minha morte: perseverança, perseverança. Sejam muito fiéis ao Padre e tenham muito amor à Obra. Que nada nos prenda à terra…[7].

José Javier, que não tinha ouvido Zorzano falar da sua morte, interpreta que se trata de algo iminente e vai correndo telefonar: “Parece que se vai; pode vir alguém…”?[8]. Na realidade, o acompanhante exagerou um pouco a situação; mas daí a pouco chegam Pedro Casciaro e outro.

Em breve, aparece também Álvaro. O momento de sufoco já passou, como outras vezes, mas pode sobrevir de improviso; e Álvaro pergunta: “Isidoro, quer que o Padre traga a Unção dos Enfermos?”[9]. “Sim, sim. Ia precisamente dizer isso[10].

Passado um tempo – que Isidoro e os outros dedicam a conversar com toda a naturalidade – Álvaro volta acompanhando o Padre, que traz os Santos Óleos. Entram também o médico e a sua mulher. Para lhes evitar um mau momento, decidem não avisar as Zorzano, que teriam sofrido muito. Por outro lado, não convém atrasar o Sacramento.

Como habitualmente, mal chegou, o Fundador abençoa o enfermo, com um sinal da Cruz na fronte. Fala um pouco com o seu filho mais velho, que reflete uma enorme sensação de paz no rosto, (…) mais feliz que nunca. Eu – dirá José Javier – nunca vira nada semelhante: a mesma simplicidade, a mesma normalidade com que vamos todos os dias comungar, assim estava ele”[11].

O Padre vai explicando os ritos, enquanto unge o doente. Antes de ungir as mãos, explica que os sacerdotes são ungidos pelo dorso, porque as suas palmas já foram ungidas na Ordenação. Recorda que a Igreja também pede a saúde corporal para o enfermo, se isso lhe convém. Isidoro não pode deixar de repetir o que tantas vezes ouviu ao próprio Padre Josemaria: “Que boa Mãe é a Igreja, que tem um remédio para cada necessidade! Agora sinto esta paz e alegria tão grandes![12].

O sublime alterna com o familiar. Acaba de chegar José Luis Múzquiz e Zorzano repara que traz a gabardina molhada: “Por favor, José Luis, tira-a, que você vai se resfriar[13].

Álvaro, que ajudou o Padre durante a cerimônia, comenta: “Isidoro: você sim, pode dizer bonum certamen certavi, cursum consummavi, fidem servavi (Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé)”[14]. O enfermo brinca. Como Álvaro, e também José Luis, andam há muito tempo preparando-se para o Sacerdócio, Isidoro diz: “Está vendo, Álvaro? Você, tanto tempo estudando, e acabam de me ungir num instante[15].

O ambiente é descontraído. Segundo o Padre, mais que uma Unção de Enfermos, “parecia uma festa de casamento”[16]. Antes de irem embora, Zorzano recorda que é Sexta-Feira da Paixão, um dia dedicado a Nossa Senhora: “Que bom seria morrer hoje para passar esta festa com Ela![17]. O Fundador despede-se comovido: “Meu filho!”[18] .

Ficam apenas o doente e José Javier. Zorzano pergunta que horas são: uma e um quarto da tarde. “E não rezamos o Ângelus![19]. Rezam-no e continuam a conversar. Isidoro pondera a sua “sorte grande” com Deus, que lhe concedeu receber com plena consciência o sacramento da Unção dos Enfermos[20]. Sublinha também o tom festivo em que ocorreu a cerimônia.

Em dado momento, José Javier mostra o pequeno crucifixo que o próprio Zorzano, por indicação do Padre, lhe dera em Saragoça. Isidoro explica como, enquanto rezava diante desse Cristo, teve conhecimento – em 1938 – do êxito que teria a evasão de Álvaro, Vicente e Eduardo, e a data em que chegariam a Burgos: “Portanto, esse Cristo é uma relíquia[21]. Interrompe-os a esposa do médico: chega com a filha, que está muito vaidosa pela faixa que lhe vão dar, como prêmio, no colégio[22].

Com o almoço, fazem tomar um calmante ao doente, para que adormeça[23]. Durante a tarde desperta-o uma trovoada: vê Carmen Escrivá, que veio visitá-lo. O contraste entre Isidoro, sempre pacífico, e o temperamento vivo de Carmen foi tema de muitas piadas. Agora soa um trovão muito forte e Zorzano diz à irmã do Fundador: “Isso é por sua causa[24] . Mais tarde chega Salus. Quando se vai, Isidoro diz a Manolo Botas – o novo acompanhante: “Vou fazer oração[25]. Tira o seu crucifixo do bolso e permanece imóvel com as mãos cruzadas sobre o peito, durante meia hora[26].

Depois chegam mais visitas. O crepúsculo favorece a conversa íntima e Álvaro comenta como deve ser magnífico contemplar Nossa Senhora face a face. Isidoro assente com entusiasmo. Mas o caráter sublime do assunto não dissipa o tom familiar, divertido, da conversa. Já quase não há luz, e Zorzano comenta: “Isto parece uma reunião de maus da fita[27].

Depois do jantar volta a mulher do médico. De repente exclama:

– Eng. Isidoro: o senhor é um santo![28].

Sim, minha senhora: – corta rapidamente – e quando chegar ao Céu também terão que me pôr uma faixa como a da sua filha[29].

Durante a noite, não consegue dormir[30]. Pergunta pelo médico; mas não vem. Isidoro – refere o seu acompanhante – “não volta a dizer nada em toda a noite”[31], que passa sem pregar olho. No dia seguinte tudo será normal: a meditação, um Terço, o Viático que lhe traz o Padre…[32]. Zorzano comenta que ficou muito tranquilo depois da Unção: “Ajuda muito[33].

Relato adaptado da biografia de Isidoro Zorzano Ledesma. Engenheiro Industrial. (Buenos Aires, 1902 - Madrid, 1943) por José Miguel Pero-Sanz.

[1] Ramón Guardáns Vallés, Madri, 05-1943 (AGP, IZL T-104). Salvo indicação expressa, todo o relato da noite de 15 para 16 de abril é tirado deste testemunho.

[2] Declaração de Juan Antonio Paniagua Arellano, (PI, Cp, f. 572).

[3] São Nicolau de Bari é um dos “intercessores” do Opus Dei, os fiéis lhe confiam as necessidades econômicas que se apresentam ao empreender, sustentar e desenvolver os apostolados que os fiéis do Opus Dei desenvolvem (cfr. opusdei.org/…ao-nicolau-de-bari-intercessor-nas-necessidades-e/).

[4] Declaração de Juan Antonio Paniagua Arellano, (PI, Cp, f. 572).

[5] José Javier López Jacoiste, Madri 17/04/1943 (AGP, IZL T-109).

[6] Cf Ibíd.

[7] Ibíd.

[8] Ibíd.

[9] Ibíd.

[10] Álvaro del Portillo e A. Rodríguez Vidal, Apuntes para un perfil…, cit., p. 358; cf. José Javier López Jacoiste, Madri 17/04/1943 (AGP, IZL T-109) e Diário do centro de Núñez de Balboa cit., 16/04/1943.

[11] José Javier López Jacoiste, Madri 17/04/1943 (AGP, IZL T-109).

[12] Declaração de São Josemaria Escrivá, (PI, Cp, f. 1076v). Cfr, também, José Luis Múzquiz de Miguel, Derio (Biscaia) 29/08/1975 (AGP, RHF D-04417); Juan de Udaondo Barinagarrementería, (PI, Cp, f. 507v); Francisco Martí Gilabert, Madri 25-XII-1992 (AGP, IZL T-456).

[13] José Luis Múzquiz de Miguel, Derio (Biscaia) 29/08/1975 (AGP, RHF D-04417, p. 150). Está em curso o processo de Canonização de José Luis Múzquiz.

[14] Ramón Guardáns Vallés, Madri 20/02/1948 (AGP, IZL T-361).

[15] Declaração de Antonio Huerta Ferrer, (PI, Cp, f. 779v). Cf. também, Juan de Udaondo Barinagarrementería, (PI, Cp, f. 508) e Ramón Guardáns Vallés, Madri 20/02/1948 (AGP, IZL T-361).

[16] José Luis Martínez Calbetó, Madri 20/04/1943 (AGP, IZL T-125); cf. também, José Javier López Jacoiste, Santiago de Compostela 25/01/1948 (Ibid., T-309).

[17] Declaração de São Josemaria Escrivá, (PI, Cp, f. 1081). Cf. também, Manuel Botas Cuervo, (PI, Cp, f. 477); A. del Portillo e A. Rodríguez Vidal, Apuntes para un perfil…, cit., p. 359; Juan de Udaondo Barinagarrementería, Valladolid VII-1943 (Ibíd., T-23).

[18] José Javier López Jacoiste, Madri 17/04/1943 (AGP, IZL T-109).

[19] Ibíd.

[20] Cf. Ibíd.

[21] José Javier López Jacoiste, Madri 17/04/1943 (AGP, IZL T-109); cf. também, a sua declaração (PI, Cp, f. 56v-57 e 66-66v); bem como o testemunho de José Luis Múzquiz de Miguel, Derio (Biscaia) 29/08/1975 (AGP, RHF D-04417).

[22] Cfr Ibíd.; cf. também Manuel Botas Cuervo, Madri 16/04/1943 (AGP, IZL T-80).

[23] Cfr Ibíd.

[24] Manuel Botas Cuervo, Madri 16/04/1943 (AGP, IZL T-80).

[25] Ibíd.

[26] Cf. Ibíd.

[27] Ibíd.

[28] Ibíd.

[29] A frase é uma reconstrução que integra as palavras recolhidas nos relatos de Manuel Botas Cuervo, Madri 16/04/1943 (AGP, IZL T-80) – cf. declaração (PI, Cp, f. 479-479v) –; José Ramón Madurga Lacalle, La Granja (Segóvia) 27/07/1943 (AGP, IZL T-25); José Luis Múzquiz de Miguel, Derio (Biscaia) 29/08/1975 (AGP, RHF D-04417) e Justo Martí Gilabert, Valência 14/04/1947 (AGP, IZL T-188).

[30] Cf. o testemunho do novo acompanhante noturno, Ángel López-Amo Marín, Madri 17/04/1943 (AGP, IZL T-83).

[31] Ibíd.

[32] Cfr Ibíd; cf., também, Teodoro Ruiz Jusué, Madri 17/04/1943 (AGP, IZL T-68).

[33] José Luis Múzquiz de Miguel, Madri 17/04/1943 (AGP, IZL T-31).

Isidoro Zorzano

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